domingo, 27 de julho de 2014

Lançamento do Prosa na Varanda 2

    Buenas, pessoal! O Prosa na Varanda mais uma vez mostrou-se um projeto bem sucedido, tanto pela produção do livro, quanto pela recepção de público. Saiba como foi o lançamento no post de hoje.


    O livro Prosa na Varanda foi uma iniciativa do Grêmio Literário que, após a 24ª edição da antologia poética Poesia na Praça, buscava expandir suas atividades literárias para crônicas. Bem sucedida, a nova edição trouxe um outro gênero ao projeto, o conto. Aliás muito bem explorado pelos escritores que conseguiam desenvolver consideravelmente o potencial presente na publicação anterior.Saiba como foi o lançamento do livro no post de hoje:

   Apesar da chuva que ameaçava prejudicar o evento, uma boa quantidade de pessoas circularam pelo Qorpo Santo na última quinta-feira, mostrando mais uma vez que Santo Antônio da Patrulha é uma cidade onde a nossa literatura é apreciada tanto por quem produz quanto por quem consome, pois antes mesmo que o evento fosse iniciado às 19:00, autógrafos já eram pedidos e não cessaram mais de duas horas depois. Além disso muitos foram os convidados que, não podendo comparecer, reservaram seus exemplares, o que mostra que há um notável interesse de nossos conterrâneos pelo trabalho de artistas locais, até mesmo das pessoas mais inesperadas:

A generosa leitora Fernanda Lauck e eu.
   Antes de iniciarmos a sessão de autógrafos, a responsável pela venda dos livros tentava explicar para uma menininha de seis anos que suas moedas não eram o suficiente para comprar o livro. A menina era Fernanda Lauck, filha de uma das escritoras participantes, Elaine Lauck, e não percebendo que levaria vários livros para casa, decidiu ir à mesa dos escritores e dar uma moeda para cada um já que não podia comprar seu próprio livro com elas. Encantados com a generosidade da menina, tentamos a todo custo devolver a contribuição, mas Fernanda foi irredutível e não aceitou. Eu fiz questão de guardar a minha e tirar uma foto para lembrar dessa pequena leitora.

   Toda alegria deste dia, no entanto, não foi o suficiente para esquecer a falta do colega Nelson Osíris, falecido pouco depois de sua participação na primeira edição do Prosa. Ele inclusive era o mais excitado com a continuidade do projeto e, além da dedicatória no livro, sua importância não pode deixar de ser citada na abertura do evento pelo presidente do Grêmio Literário, Maurício Collar. Ao mesmo tempo que sua criticidade inteligente era polêmica, o carinho com que tratava os amigos cativou seus colegas de Grêmio e certamente estará sempre presente nas ideias que construímos juntos como esse livro, mas ainda que Nelson não estivesse na mesa de autógrafos, muitos foram os amigos presentes, alguns deles contribuindo significantemente para o livro de maneira extra-literária:

O tecladista Diogo Barcelos, acompanhado da voz de Claire Wincke.
  O escritor e médico pediatra Silvano Marques nos entrevistou colhendo depoimentos sobre nossa experiência com a publicação, da mesma forma que fez no ano passado. Diogo Barcelos e Claire Wincke emprestaram seus talentos musicais para entreter o público enquanto a sessão de autógrafos acontecia. Além disso outras pessoas envolvidas na produção do livro estavam presentes: o mestre em literatura Eduardo Jablonski, responsável pela revisão do livro e o ilustrador Gustavo Vargas, que criou a belíssima capa das duas edições.

     Para quem não pode comparecer no lançamento, os livros estarão sendo vendidos na livraria La Mancha ou também diretamente com os autores. Quem estiver interessado em adquirir o seu, pode entrar em contato comigo pelo e-mail blogfelipeessy@hotmail.com. Nos vemos no post de terça-feira, um abraço!

Felipe Essy

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Quatro Invernos de Blog!


     Buenas, pessoal! Advinha quem está de aniver hoje? Não, não sou eu. É o blog! Desde o meu primeiro poema 2010, o que era apenas um forma de mostrar meus versos engavetados se transformou em algo que eu me dedico muito. Na verdade ultimamente tem sido muito difícil manter esse pique, pois passei a trabalhar tarde/noite ao invés de manhã/tarde e confesso que ainda não consegui me organizar bem com os novos horários, além disso tem os preparativos para o meu casamento - e não são poucos! Apesar de tudo isso, abandonar o blog é algo que está longe de acontecer: Eu amo escrever e ainda tenho muitas ideias para colocar em prática aqui. Algumas terão de esperar um pouco, mas sinto que tudo está se encaminhando, afinal para quem começou desengavetando poemas, 242 postagens é um grande progresso. Ainda há muitas coisas para melhorar, mas nem por isso eu deixo de estar contente com esse pequeno filho cibernético.

    Também é legal saber que eu não estou me divertindo sozinho, pois desde aquele 25 de Julho quatro anos atrás, mais de 26.000 passaram por aqui e isso me deixa muito feliz, não pela quantidade, mas por saber que há algumas pessoas que me visitam sempre que eu escrevo alguma coisa. São companhias intocáveis, mas que de certa forma me incentivam a continuar, pois sei que além de me divertir escrevendo posso compartilhar isso com alguém que gosta do que eu faço. Aliás sempre vale lembrar que uma boa parte da força que movimenta esse projeto vem do apoio e colaboração da Marcinha, minha mulher. Desde ler os posts antes de publicar até mandar fazer cartões de apresentação do blog. Uma sonhadora que adora se meter em um novo disparate, assim como eu. Exemplo disso é que não bastasse o lançamento do Prosa na Varanda 2 ontem e a Feira do Livro em Agosto, resolvemos meter nosso bedelho no Encontro de Sagas. Esse é outro projeto que estamos bastante envolvidos, por isso vou encerrar esse post por aqui que o tempo é curto. Um grande abraço a todos vocês que acompanham o blog, domingo tem post sobre o lançamento do Prosa 2. Inté!

Felipe Essy


terça-feira, 22 de julho de 2014

20 Anos de Reinado Felino

    Buenas, pessoal! Todos nós temos filmes que nos marcaram em algum momento das nossas vidas. Nem sempre são clássicos do cinema, mas algo neles nos cativa e transforma nosso modo de ver as coisas. Alguns anos atrás O Senhor dos Anéis e Harry Potter foram exemplos de filmes marcantes para toda uma geração. O primeiro foi muito importante para mim,  mas muito antes dele houve um desenho que me aproximou de coisas essenciais para que eu pudesse ver e escutar o mundo como eu faço hoje. O Rei Leão está comemorando 20 anos de lançamento e para comemorar eu resolvi escrever um pouco sobre esse clássico Disney.

    Se você me permite, antes de falar do filme, eu gostaria de dizer por que ele significa tanto para mim, afinal é - aparentemente - só um desenho infantil, mas há nele coisas, às vezes pequenos elementos, que despertaram meu interesse e guiaram muitas das minhas escolhas mais importantes, direta e indiretamente. Apesar de eu ter apenas três anos na época, eu tinha a fita VHS do desneho em casa e olhava repetidamente por que eu sentia que aquele filme me envolvia completamente de alguma forma. As cores, a música, os personagens. Eu não entendia bem o porquê, mas simplesmente notar isso abriu a minha percepção para o que é o cinema, pois passei a procurar aquilo que me atraia em outros lugares. Por exemplo, o fato do filme ser baseado em uma história de Shakespeare me despertou o interesse por livros que talvez eu não tivesse procurado tão cedo por conta própria, mas sem dúvida o aspecto mais marcante foi a trilha que eu rodei várias vezes no rádio: Por um lado escutar repetidamente os acordes de Elton John nas canções cantadas dos personagens me fez entender a sensibilidade da música pop, enquanto a atmosfera instrumental de Hans Zimmer me introduziu à músicas mais complexas. Aliás a estética das cores complementadas pela trilha é um destaque na animação.


   Em momentos cômicos e divertidos, o ambiente é colorido por tons vivos inspirados nas vestimentas africanas, embalados pelas canções de Elton John, com arranjos de guitarras alegres típicos da música popular africana, enquanto em momentos mais sombrios as cores escuras realçam a atmosfera instrumental de Hans Zimmer, conhecido pela sua grande sensibilidade em representar ideais soturnas e realistas, como em Batman: The Dark Knight (2008) e Man of Steel (2013). A trilha de Zimmer para O Rei Leão foi a primeira trilha pela qual eu me apaixonei e tenho a fita K7 até hoje, também não é por menos: A mescla de música erudita com elementos africanos resultou em algo impressionante, pois é um dos melhores trabalhos de Zimmer fora de seus experimentos com sintetizadores. Ele se inspirou em duas experiências anteriores com a música africana dos filmes A World Apart (1988) e The Power of One (1992), e chamou seu antigo parceiro Lebo M para compor os arranjos corais, resultando num disco tão aclamado quanto o próprio filme. Em comemoração aos vinte anos do filme, um disco duplo intitulado Legacy Collection: The Lion King foi lançado com faixas inéditas da trilha composta por Zimmer e devo dizer que é incrível.

Hans Zimmer (acima); Elton John e Tim Rice (abaixo)
    A qualidade da trilha também se deve a grande contribuição de dois músicos britânicos ilustres, Tim Rice e Elton John, que juntos compuseram as canções entoadas pelos personagens do desenho, muitas delas tornando-se sucessos nas rádios como "Can You Feel the Love Tonigh?" e "Hakuna Matata". A popularização da música "The Lion Sleeps Tonight" também se deve ao filme. Com um time desse a trilha ganhou o Oscar de Melhor Trilha Original, Melhor Canção por "Can You Feel the Love Tonigh?", além de ter outras duas canções indicadas para a mesma categoria. Não bastasse isso, também conquistou dois globos de ouro pelas mesmas indicações. Até hoje é a única trilha para um desenho animado a ter conquistado o Diamon Certification, prêmio concedido a discos que arrecadaram acima de 10 milhões de dólares, ao lado de nomes como Adele (21), Nirvana (Nevermind) e Madona (Like a Virgin) e logo atrás dos Beatles (Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band)!

   Falando de números, O Rei Leão teve um reinado nas bilheterias muito além de sua época: Somando um total de US$ 987,483,777, a animação não apenas teve a maior bilheteria de 1994 no mundo todo, mas manteve o recorde de maior arrecadação nos cinemas para um desenho até 2003, superado por Procurando Nemo. Depois foi ultrapassado por outras animações computadorizadas, mas em 2011 com sua exibição em 3D, O Rei Leão passou a ocupar a terceira colocação. Ainda assim, quem é rei nunca perde a majestade: O Rei Leão continua a ser a animação desenhada à mão mais bem sucedida nas bilheterias Disney até hoje e está em 19º lugar entre longa-metragens, acima de títulos como Harry Potter e a Pedra Filosofal, O Hobbit - A Desolação de Smaug e Star Wars III - A Vingança do Sith. No mínimo respeitável, isso sem contar a adaptação para os palcos: Baseado no filme, o musical de mesmo nome foi um sucesso instantâneo desde sua estreia na Broadway e continua em cartaz mesmo depois de 6.700 apresentações, sendo o quarto musical mais encenado na Broadway, mas não pense que a qualidade da produção é medida somente por números: por nomes também:

Musical na Broadway
  Poucos desenhos conseguiram reunir tantos nomes famosos em seus dubladores: James Earl Jones, responsável por dar voz ao personagem Darth Vader, emprestou seu porte vocal ao rei Mufasa. Para viver o arteiro protagonista Simba, ninguém mais apropriado que o eterno mata-aula de Vivendo a Vida Adoidado, Matthew Broderick. O calau azul Zazu era dublado por ninguém menos que Rowan Atkinson,  o Mr. Bean. Whoopie Goldberg interpretava uma das hienas, enquanto o vilão Scar era dublado por Jeremy Irons, o Brom de Eragon. Enfim, a lista de motivos para lembrar desse filme não termina por aqui, mas o post tem que acabar em algum lugar. Então espero que tenham gostado desse post, por que eu adorei escrevê-lo. Aquele abraço!

Felipe Essy

segunda-feira, 21 de julho de 2014

O Triste Vencedor



  Um dia de repente acordei feliz. Não, eu não estava feliz, eu era feliz. Fiquei assustado, será que era normal? As pessoas ficam felizes assim? Não tem um transtorno psicológico com um nome para isso? Aquilo começou a me preocupar.

   Um homem é guiado pelo desejo de felicidade, então para onde ele iria se já fosse feliz? O que ainda resta para fazer se você já está satisfeito com tudo que tem? Teoricamente nada. Então comecei a me perguntar como eu viveria sem a insatisfação. Viveria acomodado aceitando o que me dessem? Ora, claro que não, pois vocação para hippie eu nunca tive. Foi então que percebi a coisa mais importante que perdi com a felicidade: o medo.

    Felizes nós deixamos de temer o passado e de nos preocupar com o futuro, a única coisa da qual temos medo é o de não sermos mais felizes, mas nem isso eu tinha, pois a felicidade já estava me incomodando. Como alguém poderia viver sem o medo? O medo me dizia o que não fazer, era o meu pai, o reverendo que me mandava ter juízo. E agora, o que eu faço sem ele? Então fiquei desolado ao perceber que não era mais um homem, pois uma pessoa é moldada pelas coisas que é incapaz de fazer, e o que faria se pudesse fazer tudo? Provavelmente não saberia o que fazer – e eu realmente não sabia.

    Desolado percebi que tinha enlouquecido. Não acreditava que qualquer terapia ou narcótico pudesse dar conta de tal mal, essa falta do vazio. Então cai em profunda tristeza por não ter o que chorar, atingindo o ponto inevitável para um homem em que o túmulo se torna um berço desejável, onde o corpo deitará e a alma terá sua calma devolvida, só que nem a morte me parecia mais tão boa assim, pois era justamente dessa paz que eu queria me livrar!

   Foi aí que eu me dei conta que estava com o pior dos males, o medo de temer! A ameaça invisível, o invasor que se espera no silêncio escuro e não se sabe de que lado vai vir. Novamente eu tinha medo! Feliz de mim que não era mais feliz! Soltei um suspiro terrivelmente aliviado. Que bom era não ser mais despreocupado, eu tinha enfim algo para me ocupar o vazio do peito deixado pela felicidade que não me foi suficiente. E assim, deitei minha cabeça no travesseiro sorrindo os pesadelos que teria.



Essa crônica foi mais um texto extraído do livro Prosa na Varanda do ano passado. Quinta-feira, dia 24 será o lançamento, às 19:00 horas no Qorpo Santo. Espero vocês lá, um abraço!

Felipe Essy

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Mais Uma Prosa na Varanda

     Buenas, pessoal! Devido a boa repercussão ano passado, a segunda edição do livro Prosa na Varanda chega cheia de novidades semana que vem. Confere um pouco do que estar por vir:

Arte de capa e contra capa feita por Gustavo Vargas
    A ideia do livro surgiu após a criação do blog Prosa na Varanda, onde publicávamos textos de escritores locais. Na época o Grêmio Literário, grupo de escritores de Santo Antônio da Patrulha, ansiava por um novo projeto literário além da tradicional antologia poética Poesia na Praça. Conforme postávamos as crônicas, poesias e artigos no blog, percebemos que nosso grupo tinha perfeitas condições para produzir um novo livro, mas dessa vez de crônicas. A ideia nasceu e batizou-se com o mesmo nome do blog, reunindo textos de estilos variados dentro do gênero, desde crônicas humorísticas até narrativas mais próximas do conto.

    Essa diversidade estilística ampliou a segunda edição em crônicas e também contos, onde alguns escritores exploraram seu potencial ficcional presente nos textos do ano anterior.  O livro contará com a participação de nove escritores. Elaine Lauck, experiente escritora de artigos sobre literatura e educação, também está finalizando o processo de publicação de um livro sobre escritores patrulhenses;  Felipe Essy (esse que vos fala), paralelamente a seu blog pessoal, desenvolveu o apreço por histórias curiosas e aspectos sombrios presentes em alguns de seus textos do ano anterior; Joelson Oliveira, conhecido por suas crônicas envolvendo personalidades e causos antigos de Santo Antônio, já publicou dois livros independentes, além de várias participações em antologias poéticas; A narrativa que flerta com o leitor numa seriedade debochada quase machadiana de Luiz Nicanor é sua marca registrada. Com mais de 300 textos publicados no currículo, não é de se admirar com as duas premiações no Poesia no Ônibus e no Trem e outras três em Histórias de Trabalho; Maria De Lourdes, entusiasta militante da literatura, está sempre envolvida em projetos de incentivo à leitura, participando também de algumas antologias poéticas; Maurício Collar, pós-graduado em Língua portuguesa e Literatura, o atual presidente do Grêmio Literário, após várias participações no Poesia na Praça decidiu ousar em um romance independente e organizar a publicação conjunta de crônicas Prosa na Varanda, assim como sua nova edição; Regina Barcelos já trilhou muitas veredas literárias, isso incluí poesias, histórias infantis e até mesmo o hino da cidade (é verdade!). Sua última publicação aborda as lendas e fatos intrigantes a cerca do assassinato de Maria Luiza, a noiva da Lagoa dos Barros; Rosalva Rocha tem duas respeitáveis premiações em poesia pela ALA-POA e Sociedade Partenon Literário, graças a seus vários trabalhos em antologias poéticas, além de textos em outros gêneros, como suas crônicas no Prosa na Varanda do ano anterior, em que narrava de forma carismática as peripécias das "personalidades" da rua Pinheiro Machado. O ainda livro conta com a arte do ilustrador e quadrinista Gustavo Vargas, mais conhecido como Dr.Insekto, e revisão de Eduardo Jablonski, mestre em Literatura e autor de mais de 800 artigos relacionados.

Lançamento do primeiro Prosa na Varanda em 2013
    Comemorando o dia do escritor, o lançamento acontece dia 24 de Julho às 19:00 horas, no espaço Qorpo Santo em Santo Antônio da Patrulha. O valor do livro será de R$ 25,00 e esperamos todos amigos e entusiastas da literatura local lá. Um grande abraço!

Felipe Essy

domingo, 6 de julho de 2014

A Flor

  “Flores nascem até no cemitério”, dizia meu pai. Se eu conseguisse falar, essas palavras teriam sido perfeitas para o seu funeral, mas sinceramente eu não entendia aquele otimismo inesgotável. Parecia haver uma música no ritmo do relógio que despertava seu bom humor sem que ninguém mais conseguisse escutar.


   Quando me levava ao museu onde trabalhava, meu pai sempre dizia: “se a gente parar e olhar o passado, percebemos que o tempo é um escritor caprichoso, pois o que parece uma tragédia pode ser indispensável para um milagre.” Talvez, mas me pergunto se ele ainda pensaria o mesmo naquele momento.

    O baque da terra na tampa do caixão me acordou e olhei em volta. Minhas tias de longe, meus primos que eu não sabia o nome, um monte de gente que eu não via há anos. Por que a súbita saudade, eu questionava em silêncio. De repente percebi que meu olhar pousava sobre minha tia Clarice e desviei rapidamente. Meu pai e tia Clara, como a chamavam, eram brigados. Não sei bem como começou, mas terminou mal. Era sempre constrangedor quando nos encontrávamos. Não cheguei a conhecer os filhos dela, acho que tem dois... A cerimônia terminou e todos ficaram ali conversando, atualizando suas informações familiares e eu que me sentia sobrando mais do que nunca fui dar um passeio pela ala das gavetas.

    Perto do túmulo da minha avó estava uma moça. Sorri, cumprimentando-a. Ela retribuiu e voltou a olhar uma das gavetas. Percebendo que se tratava de parentes meus, perguntei:

    “- Seus parentes também?”

    “- Sim.” Disse ela. “- Pelo menos é o que me dizem.” Rimos sinceramente. Um assunto ligou o outro e quando vi estávamos conversando animadamente. Nem parecia mais um velório. Não sei por que não me senti culpado na hora, mas parecia que aquilo tinha acontecido. Tínhamos nos afastado um pouco das gavetas, quando de repente tia Clara apareceu e disse seca: “-Vamos, filha. Temos muita estrada ainda.” A moça me olhou e falou:

    “ - Ah, me esqueci disso. Põe essa flor no túmulo da vó para mim? Brigado seu... ?”

   “ – Rodrigo. Ponho sim. ” Forcei um sorriso. Notei o embaraço no olhar dela para tia Clara. Fez um aceno e foi embora. Eu fiquei ali olhando para a flor e pensei:

    “As flores nascem até no cemitério.”



   Essa é uma das minhas histórias do livro "Prosa na Varanda" lançado ano passado e estarei postando algumas delas aos domingos para comemorar a publicação da segunda edição. O "Prosa na Varanda 2" contará com crônicas e contos de vários autores, oito assinados por mim. O lançamento será no próximo dia 24, às 19:00 horas no Qorpo Santo. Espero todos vocês lá! Um abraço.

Felipe Essy

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Mais Perto da Capital

    Recentemente um teaser de A Esperança Parte I foi divulgado no site The Capitol,criado como se fosse um meio de comunicação da Capital com os distritos, mesclando ficção e realidade. Essa presença da Capital no mundo real surgiu como uma linha de esmaltes "assinada" pelo personagem Cina durante a campanha promocional de Jogos Vorazes. A ideia cresceu no segundo filme com um site de moda das tendencias da Capital com estilistas renomados, mas essa brincadeira está tomando proporções cada vez maiores e questionáveis.


    Como bem sabemos, a Capital no livro representa o contraste de uma cultura urbana consumista alienada aos custos do seus altos padrões de vida aos demais. O diretor Gary Ross adaptou isso muito bem para as telas, investindo no contraste de cores e extravagância da Capital com a palidez dos outros distritos, no entanto enquanto a produção do filme reafirma a ideia da escritora Suzanne Collins, as campanhas publicitárias exploram uma outra via perigosa.

   Antes que o primeiro filme da franquia fosse sequer lançado, o anúncio de que uma linha de esmalte inspirada na saga seria produzida causou uma grande polêmica, tendo em vista a contradição entre história e campanha publicitária, mas a equipe responsável pelo projeto não desistiu e solucionou o problema batizando-a Cina Glaze "Colors from the Capitol", utilizando-se de um personagem querido pelos leitores e associando a uma iniciativa típica da Capital.


    O problema é que isso não parou por aí: Quando Em Chamas chegou aos cinemas, a história tomou uma proporção muito maior: Um site inteiro foi criado para hospedar toda uma iniciativa voltada para a moda inspirada na Capital, o Capitol Couture (Moda Capital), incluindo contribuições de grandes estilistas da casa Dior e Alexander McQueen,  além de vários ensaios fotográficos e textos voltados às "novas tendências". Tamanho investimento tornou o Capitol Couture um verdadeiro canal de moda luxuoso, incentivando o consumo criticado nos livros.

    Isso tudo poderia ser apenas uma brincadeira se não mexesse com conflitos reais da nossa sociedade, pois mostra a linha tênue entre nós e aqueles cidadãos que se divertem com 24 jovens se matando num programa de televisão. A Esperança é meu livro preferido dos três justamente por não ser sobre a queda da Capital, mas da construção de "Capitais" e nós somos partes tão ativas nesse processo quanto os Idealizadores dos jogos, pois consumimos o produto desse processo. Agora temos o site oficial da Capital, outra "brincadeira" promocional da campanha publicitária da franquia, onde podemos nos cadastrar, fazer parte de um distrito e ajudar a Capital da nossa amada Panem. Não que eu leve isso a sério, mas lembrando do filme A Onda, em que um professor realiza um experimento formando um movimento fascista dentro da sala de aula, é de se pensar que as capitais ditatoriais que abominamos dos livros de história não estão tão longe da nossa realidade.

Felipe Essy