sábado, 3 de janeiro de 2015

A História Entre os Cinco Exércitos



    Agora que mutos já assistiram ao Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos, é a hora de explorar algumas lacunas e entender melhor por que algumas coisas mudaram no filme. O texto a seguir está repleto de revelações do enredo, então considere-se avisado.


O PODER DE GALADRIEL


     Enquanto os anões se debatem e exércitos avançam, Galadriel adentra Dol Guldur e confronta Sauron para resgatar Gandalf, mas a cena parece extrapolar um pouco os limites do personagem. Alguns elfos possuem naturalmente dons que nós chamaríamos de “mágica”, mas que não são nada surpreendentes entre eles. Essas habilidades especiais normalmente são apenas uma percepção sensível. No caso de Galadriel, ela é capaz de vislumbrar o futuro – ou probabilidades dele – e ler pensamentos de outras pessoas, mas nada que possa ser usado como uma arma para atacar, embora essas duas habilidades em si possam ser perturbadoras para alguns membros da sociedade do anel. O que poderia realmente conferir à Galadriel a capacidade de rechaçar o Senhor do Escuro é o Nenya, um dos três grandes anéis do poder.

      Assim como os outros anéis, o Nenya é capaz de apenas preservar e proteger o que é determinado por seu portador. Dessa forma Galadriel mantém Lothlórien oculta e imune da ação do tempo, mas nenhum deles pode ser utilizado como uma arma, pois foi Sauron quem ensinou os elfos a como forjá-los e jamais teria dado tal conhecimento contra seus próprios interesses, pois ele desejava controlar os portadores. No entanto percebemos que Galadriel não teme essa influência na cena de A Batalha dos Cinco Exércitos. Isso se dá pelo fato de que seu anel foi um dos três únicos a serem criados escondidos de Sauron e assim Galadriel é capaz de utilizá-lo para se proteger do próprio Senhor do Escurdo, como protege suas terras, mas não pode lhe causar nenhum dano, mas não se engane: Essa não foi a única vez que a rainha de Lórien entrou em uma batalha e ela era considerada fisicamente capaz de defender a si mesma entre os elfos homens.


SARUMAN E SAURON

   Na investida contra Dol Guldur, pode parecer estranho que ninguém suspeite do posicionamento pouco ofensivo de Saruman contra Sauron, afinal ele era o mago mais poderoso da sua ordem e com conhecimentos muito além de Galadriel, mas assim como os outros magos, ele foi enviado à Terra-Média com propósitos que o impediam de enfrentar Sauron diretamente.


    Saruman era um dos Maiar, espíritos logo abaixo dos Valar que governavam a terra. Após o desaparecimento de Sauron com a perda do Um Anel, os Valar enviaram cinco Maiar sob a forma humana para socorrer os povos desolados pela sombra de Mordor, no entanto estavam proibidos de governá-los, pois eles temiam que os magos pudessem corromper-se como Sauron e transformar a Terra-Média num enorme campo de batalha pelo poder. Por isso foram proibidos de enfrentá-lo diretamente, principalmente por que eles partilham a mesma essência

   Tanto os magos quanto Sauron eram Maiar e assim como os Valar não possuíam forma física – embora pudessem adotá-la sem nela habitar. Assim, Sauron era capaz de assumir vários formas: serpentes, lobisomens e até vampiros, mas sem estar mortalmente ligado a elas (Sauron teve várias formas destruídos ao longo de sua existência). Por outro lado, Saruman e os outros magos são Maiar enviados à Terra-Média sob formas humanas e susceptíveis a todas vulnerabilidades físicas e emocionais de um corpo mortal, logo também tiveram seus poderes limitados a essas condições, as quais Sauron não estava sujeito. Sendo assim, nem Saruman ou Gandalf poderiam derrotá-lo em um confronto direto.

   Embora Saruman já estivesse aliado a Sauron durante a expedição de Bilbo, teria sido interessante explorar sua associação com senhor do escuro ao longo dos três filmes, afinal sua corrupção está intimamente ligada aos anéis do poder e o crescente poder de Sauron, mas apesar de parecer uma aliança, Saruman jamais pretendeu unir-se a Sauron, e sim usá-lo para encontrar o Um Anel e usá-lo. De fato Saruman chega a criar seu próprio anel, que amplia o poder de manipulação de sua voz, no entanto assim que os servos de Sauron trazem uma das palantiri para Mordor, Sauron a usa para influenciar e manipular Saruman que, reduzido a forma humana, foi facilmente corrompido.


LEGOLAS E A IDA A GUNDABAD


   Enquanto Saruman é pouco aproveitado como elo entre as trilogias, Legolas é explorado a exaustão, mesmo depois de protagonizar o segundo filme mais que o necessário, no entanto a sua relação com o rei Thranduil acabou mostrando-se interessante na história. O que deixou os espectadores meio perdidos foi a expedição relâmpago que Legolas e Tauriel fazem à desolada região de Gundabad, aparentemente sem importância para o enredo, já que não entendemos bem por que as tropas de Azog se encontram lá. Na verdade, Gundabad era um antigo ponto estratégico de Sauron criado especialmente para se vingar de uma antiga desavença entre ele os anões de Moria.


   Quando Sauron planejou usar os elfos para forjar os anéis do poder, ele disfarçou-se como emissário dos Valar, oferecendo seus conhecimentos a Gil-Galad, senhor de Lindon, no entanto ele não acreditou em tais ofertas. Sauron então recorreu aos elfos artíficies de Eregion, nas Montanhas Sombrias próximo à Moria. Deslumbrados com as obras que poderiam criar com os conhecimentos de Sauron, eles o acolheram sem hesitar, ajudando a forjar os anéis do poder, mas Sauron acabou se revelando com a criação do Um Anel e os elfos de Eregion descobriram seus planos. Sauron então ataca Eregion e o rei Gil-Galad envia Elrond para conduzir os exércitos de Lindon em seu auxílio, mas Eregion é devastada e Elrond foge. Sauron o teria alcançado se não fosse pelos anões de Moria, que haviam se aproximado dos elfos daquela região. Eles recuaram para Moria, deixando Sauron impotente do lado de fora dos portões. Irado, mas incapaz de invadir Moria, ele mandou orcs ocuparem o monte no extremo norte das Montanhas Sombrias, Gundabad, a espera da oportunidade.


   Após muitas tentativas fracassadas de dominar o norte, Sauron concentra suas forças em Mordor, mas muitos orcs continuam em Gundabad, dentre eles o filho de Azog que anseia por vingança contra os anões do norte, pois no livro Azog foi morto anos antes por Dáin pé-de-ferro, o primo de Thorin que o socorre na Batalha dos Cinco Exércitos. Originalmente Dáin mata Azog contra a provocação que Azog fez ao avô de Thorin: O antigo rei Thrór estava desesperado após a destruição de Erebor, então ele decidiu partir para Moria onde acreditava que poderia encontrar a salvação para sua família, no entanto os orcs o decapitaram e entregaram a cabeça de Thrór aos anões com "AZOG" inscrito em sua testa, junto com algumas moedas enquanto o chamavam de mendigo. Os anões planejam sua resposta durante sete anos e vários clãs se unem em um grande ataque que varreu as Montanhas Sombrias em busca de Azog. Quando as tropas lideradas por Thráin, filho de Thrór, chega a Moria, ele descobre que Azog também os esperava com um exército. Os anões começavam a ficar em desvantagem quando chegam os reforços das Colinas de Ferro e retribuem a gentileza de Azog, cravando sua cabeça numa estaca com um saco de moedas em sua boca. 


A PEDRA ARKEN E O COLAR DE THRANDUIL


    Quando a famigerada batalha começa a se formar, a Pedra Arken volta a protagonizar a história. Apesar da aparência quase espacial, não há nada de sobrenatural nela, a não ser a crença dos ancestrais de Thorin de que a presença da pedra nos salões estava ligada à glória do reino de Erebor. Peter Jackson preferiu explorar um aspecto mais místico da pedra Arken, já que ela estava fortemente vinculada à ambição de Thorin, mas uma parte tão importante da trama acabou simplesmente esquecida no final do filme. Não vemos mais depois de Bard guardá-la sob seu manto nos portões de Erebor. Os leitores também sentiram falta de um dos momentos mais emocionantes do livro, quando a pedra é depositada sobre o peito de Thorin em seu enterro. No livro é dito que seu primo Dáin se torna o rei de Erebor, trazendo muitos de seu povo aos salões sob a montanha. Uma decima quarta parte da fortuna de Erebor é dada ao povo de Bard em cumprimento ao acordo que Thorin originalmente fez (no livro) com Bard em troca da pedra Arken, mas Bard o envia ao rei da Cidade do Lago, que morre fugindo com esse tesouro – e não o dos cidadãos da Cidade do Lago, como no filme.


    Uma outra joia esquecida no filme é o colar de gemas brancas que Thranduil se refere antes de partir para Erebor. Embora esse interesse apareça pouco nas versões exibidas no cinema, o colar tem destaque em uma cena estendida de Uma Jornada Inesperada. Nela, Bilbo conta a história de Erebor, em que Thranduil visita o rei Thrór na montanha para lhe prestar homenagem quando ele lhe oferta um baú em que Thranduil vê um brilhante colar de jóias. No momento em que o rei elfo se aproxima para tocá-lo, o baú é abruptamente fechado e Thranduil retira-se ofendido. Enquanto isso, Bilbo diz: “Não se sabe como começou. Os elfos dizem que os anões o roubaram. Os anões têm outra versão, de que os elfos não pagaram o preço justo.” Essa é uma referência clara a uma joia central na origem entre a discórdia dos elfos e anões, o Nauglamir. Isso alardeou vários fãs, pois inserir esse colar no enredo de O Hobbit interfere diretamente no livro mais importante da mitologia tolkieniena, O Silmarillion. Aparentemente Peter Jackson pensou duas vezes e mudou de ideia em A Batalha dos Cinco Exércitos, transformado o Nauglamir em um simples colar feito para a mulher de Thranduil, cujo interesse é exclusivamente emocional. Ainda assim, o colar desaparece na narrativa do último filme, assim como a pedra Arken. Talvez ambos apareçam na versão estendida, mas ainda sim me parece um deslise de roteiro.

    Esse colar que teria sido da mulher de Thranduil na verdade não existe nos livros, mas outra jóia sim: Após receber uma décima quarta parte do tesouro, Bard encontra o Colar de Girion, uma bela jóia composta de quinhentas esmeraldas. Ele o da para Thranduil como retribuição pela ajuda prestada após a destruição da Cidade do Lago. Vale lembra que Giron foi o ancestral de Bard que governara Dale antes da chegada de Smaug. Bilbo também foi recompensado com dois baús de ouro - devidamente aumentados pelas lendas do Condado.


Espero que vocês tenham gostado do post, ele acabou demorando mais do que o esperado, mas acho que valeu a pena, mas o filme não é o único assunto desta postagem: Hoje seria o 122º aniversário de Tolkien se ele estivesse vivo - de dar inveja até a Bilbo, e deixo aqui um trecho de Frankenstein que me lembrou dele:

"Teria essa mente, tão permeada de ideias, maravilhosas e magníficas fantasias, que formaram um mundo, cuja existência dependia da vida de seu criador - teria essa mente perecido? Isso agora só existe na minha memória? Não, não é assim; Sua forma moldada tão divinamente, e iluminada pela beleza, tem decaído, mas seu espírito ainda visita e consola este singelo amigo."

- Mary Shelley

Parabéns, professor!

3 comentários:

  1. Muito bom cara! Muito esclarecedor. Pra quem assiste o filme por si só, ele não passa de ação e fantasia abundante, pois esses fatos nos filmes bagunçam e tornam rasas as sua causas e importâncias. Só faz sentido mesmo se tu leu os livros, senão é confuso mesmo.
    Sobre Galadriel e o Nenya: Os três anéis élficos não foram tocados por Sauron, pois foram feitos por Celembrindor, o mesmo dos portões de Moria, mesmo que ainda assim fossem sucumbidos ao poder do Um, os anéis eram imaculados, guardados da influência de Sauron desde que este não possuísse o Um, por isso ele representa força nas mãos de Galadriel, que é a única sobrevivente dos Noldor exilados de Aman (me parece), Noldors estes que o próprio Sauron trocou experiências inúmeras vezes, desde os tempos de Valinor. Ela teria poder sim ao menos para um combate direto, mesmo que fosse derrotada, como fora muito antes Finrod Felagund. E outra, Sauron abandona Dol Guldur, ele já não precisava ficar ali, por isso parece que ele fugiu, foi essa a sua intensão, creio, de parecer ter fugido, mas na verdade ele já tinha tudo armado em Mordor, como sabemos. Nenhum daqueles que ali estavam deteriam-no se ele estivesse em plena forma e com o Um anel em mãos, mas lembremos que ele não era tão fodãozão assim também né, pois na Segunda Era Ar-Pharazón o encurralou em sua própria morada em Mordor, o levando para Númenor como prisioneiro humilhado, mesmo que depois Sauron os tenha corrompido com malícia, ele já fora inferior até mesmo à raça dos homens, mesmo que esses fossem descendentes de Elros, ainda assim eram homens.
    Adorei a citação de Frankenstein, caiu como uma luva!
    Abraços!!

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    1. Valeu mestre Reis! É incrível ter esse nível de comentário, principalmente sobre Tolkien!

      Realmente, é importante destacar que os anéis do poder foram feitos pelos Gwaith-i-Mírdain (elfos joalheiros) sob o comando de Celebrimbor, mas os três anéis élficos (Nenya, Vilya e Narya) foram confeccionados pessoalmente por Celebrimbor, sem nem mesmo a contribuição dos outros artíficies de seus povo. Suas habilidades com obras "mágicas" não se devem apenas aos conhecimentos de Sauron (antes vassalo de Aulë, o Valar artíficie), mas também ao seu parentesco com Fëanor, embora ele tenha se recusado a aderir a ambição vingativa de seu antepassado. Mesmo quando aceitou receber Sauron, ele não se corrompeu, como de fato foi confirmado quando Celebrimbor fugiu com anéis do poder e não os manteve consigo.

      Conforme li sobre Galadriel, me parece que ela não teria habilidades sobrenaturais, digamos assim, para confrontar Sauron, pois parece que seus poderes são relativos a percepção do que ataque, embora um confronto físico pudesse ser mais favorável para ela, considerada bem capaz nesse sentido. De fato, todos os elfos que enfrentaram e tiveram algum exito contra Sauron, foi pelo confronto físico, assim como os numenorianos liderados por Ar-Pharazôn. Se pararmos para pensar, é estranho que um Maia como Sauron não pudesse valer-se de seus poderes sobrenaturais para vencer oponentes que o enfrentavam apenas fisicamente, pois dessa forma ele pouco se diferencia dos elfos. É de se pensar...

      O ataque a Dol Guldur na verdade é um momento onde poderia ter ficado bem evidente a obsessão de Saruman pelo Um Anel, pois ele temia que Sauron o encontrasse (ele ainda acreditava que ele estivesse pelas margens do Isen), mas Sauron já estava ciente da traição de Saruman e retirou-se de Dol Guldur antes disso. Apesar da grande ousadia e perspicácia do mago branco, ele acabou facilmente manipulado pelo Senhor do Escuro e esse parece ser o verdadeiro poder de Sauron: a influência e conhecimento, muito mais do que um poder sobrenatural.

      É fantástico ter essa colaboração de alguém bem inteirado do universo de Tolkien como você, valeu mesmo pelas palavras! Um abração! ;)

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  2. Exato meu caro, também acho que Sauron haveria de ter mais habilidades sobrenaturais como um maia de Aüle em um confronto físico perante os homens de Nùmenor ao menos, no entanto, se prova sim que seu poder real, além das habilidades como artífice, é o da influência psicológica, assim como o próprio Saruman também o era, com sua voz hipnotizante, porém o mago obviamente não era capaz de resistir ao senhor de Mordor. O medo era a grande arma de Sauron. No filme, claro que esse detalhe da real intenção de Saruman é muitíssimo vago, como disseste.
    Galadriel, mesmo fisicamente, talvez não fosse páreo para Sauron, no entanto eu disse que ela teria chances, por causa do anel e por ser uma Noldor, assim como Felagund o enfrentou e o cão Huan o derrotou, além do citado Ar-Pharazón e seu exército, com a mesma coragem de Fingolfin, irmão de Fëanor, que enfrentou Melkor, e do próprio Fëanor. É bem claro que os Noldors tinham essa natureza guerreira e determinada e que não seria fácil derrotar a senhora de Lothlórien. Grande abraço mestre, é um privilégio trocar essas conversas contigo. Sucesso!

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